quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Texto e foto: Magali Colonetti

Moradora de um dos bairros mais pobres de Criciúma, o bairro Renascer, Ângela Freitas Machado é uma típica brasileira que sobrevive com o uso da malandragem. Com 38 anos não sabe ler, pois tem dificuldade em aprender, cata lixo e ganha algumas coisas. Existem mulheres que sempre ajudam e são consideradas "fixas". Doam comida, roupa e até móveis usados. Quando a situação aperta é delas que vem a ajuda. No lixo encontra objetos e itens que usa em casa ou vende para os vizinhos por R$ 10,00, ou outro valor, dependendo do que for. "Acho brinquedos, roupa, pulseiras... achei uma cortina e um conjunto de toalha, quer ver?" Na parede da cozinha de sua casa vários quadrinhos com fotos, imagem do sagrado coração de Jesus e penduricalhos encontrados nas lixeiras por aí.

Na verdade quase tudo da sua casa foi encontrado no lixo. Só o liquidificador e um tanquinho elétrico de lavar roupa ela diz ter comprado. Durante a entrevista uma de suas vizinhas veio perguntar se tinha flor de plástico. Geralmente é no centro onde ela faz esse trabalho. Até um carrinho é utilizado para carregar o que é encontrado. Uma ação incentivada pela prefeitura que quer acabar com carroças no centro. Esse veículo é muito utilizado pelos catadores, e algumas vezes até crianças "dirigem" nas avenidas movimentadas da cidade. Mas um tombo acabou resultando numa lesão em sua perna esquerda, e por enquanto ela não pode sair de casa. Para andar tem o auxílio de uma vassoura azul velha que ela chama de bengala. Até tem uma muleta, mas prefere a vassoura.

Ângela começou a catar lixo quando era adolescente. Antes não necessitava e seus pais não deixavam. Sua mãe Josefa era do lar, e seu pai Alberto mineiro. Nascida em Criciúma, foi criada junto com sete irmãos. Hoje são apenas quatro. Dois morreram e um sua mãe afirma ter doado.
A dificuldade de aprendizagem de Ângela é resultante de um problema mental, que ela mesma não sabe qual é. Mas seu comportamento é de menina, às vezes até de criança. Ri, tem vergonha, mas ao mesmo tempo tem uma esperteza que só. Ângela tentou estudar e aprender a ler, mas até hoje não sabe escrever seu nome.


assou pela Sociedade Criciumense de Apoio aos Necessitados (Scan). Que hoje é o Bairro da Juventude, uma instituição que atende 1200 crianças e adolescente. Lá eles passam pela educação infantil, fundamental, laboratórios educativos e também pela educação profissional. Ainda recebem cuidados médicos, transporte, alimentação. Tudo isso buscando a promoção e a inclusão dessas pessoas que precisam de oportunidade. Ali as professoras, entre elas uma que Ângela não esquece, a Dona Angélica, notaram que ela era especial. Então houve um encaminhamento para a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Criciúma. Gostava muito de freqüentar aquele lugar, principalmente porque tinha que andar de ônibus e andar numa bicicleta onde se pedala e pedala e não sai do lugar. É assim a descrição da catadora para a bicicleta ergométrica. "Legal aquilo né? Eu gostava um monte!". Também gostava das amiguinhas na Apae que não a ficavam chamando de louquinha. "Na Scan elas passavam por mim e falavam: louquinha, louquinha. Eu dizia: ahhh louquinha é? E saia para bater nelas. Uma amiga minha me ajudava. Sempre era assim", lembrou, gesticulou a situação e ainda riu muito da situação.

Ao mesmo tempo em que freqüentava a Apae, Ângela trabalhava. Com 14 anos era empregada doméstica e ainda cuidava da criança de uma família. Mas uma "travessurinha" rendeu sua primeira gravidez. O pai? O próprio patrão. Nasceu Luiz Antônio Machado, que hoje tem 19 anos. Menos de três meses depois do nascimento de Luizinho, ela se "juntou" com João Amaro Mendes, um cara baixinho e magrinho com quem vive há 18 anos. O termo se juntar significa que eles estão juntos, mas não casados legalmente. Fato muito comum nessas comunidades mais pobres. Já ficar 18 anos juntos com a mesma pessoa não é assim tão comum. Sem um local para morar, eles viviam no meio do mato, em uma cabana de plástico. Eram ratos, mosquitos e uma forma de vida miserável. Para sobreviver ela e o marido começaram a catar lixo e pedir ajuda. "Eu protegia o Luizinho dos ratos, senão eles mordiam o meu filho". Por incrível que pareça, Ângela gostava daquela época.

Seu segundo filho se chamava Diego. Ele viveu apenas um ano e dois meses. Morreu com desidratação, vômito e febre no hospital. Ângela não sabe dizer o por quê desse estado clínico do menino. No dia anterior à morte do filho, a visita foi especial e com muitas brincadeiras. Para animá-lo, pedia para bater palminha, e ele batia bem devagarzinho. Estava muito cansadinho, mas parecia estar um pouco mais forte. Ela saiu do hospital pensando que no outro dia seu filho estivesse melhor. Quando voltou, na manhã seguinte, ele estava morto. Nada mais poderia ser feito. Queria pegar o filho, fazer ele bater palminha, mas não dava. Um momento de muita tristeza em sua vida.

Depois foi a vez de Sabrina vir ao mundo. Ela acha que Diego era a cara de Sabrina, fato comprovado quando olha uma foto do menino que ela guarda. Com 15 anos, ela é definida pela mãe como muito esperta. Estuda a noite na escola do bairro, e está cursando a sétima e oitava séries. Na adolescência os namoricos começam a surgir e ela está ficando um pouco namoradeira demais. Na noite anterior da entrevista ela chegou em casa às cinco da manhã. Sua amiga Talita, de 14 anos, foi sua companhia em um evento natalino de uma loja da cidade. A festa acabou meia-noite. Talita se adiantou respondendo: "Pra nós a festa terminou às cinco, né Sabrina?". Mas Ângela, com seu jeito avoado e visão de criança, nem liga muito pra isso, o que preocupa a assistente social Josefina Kohler Dagostim, que faz alguns trabalhos com as famílias do bairro. "Muitas meninas estão grávidas com 13 anos, não querem nada com nada. Eu cobro sempre da Sabrina para que ela estude e cuide de sua mãe. Mas é um trabalho muito difícil", explicou. Neca, como é mais conhecida, há quatro anos visita aquele bairro. Ela faz parte de um grupo da Igreja Católica que realiza esse trabalho. O bairro pertence à Paróquia São Paulo Apóstolo e, por conseqüência, é sua responsabilidade orientar aquelas famílias. Neca me ajudou a achar Ângela e me levou até sua casa. Ali é o terceiro lugar do bairro onde ela mora. Ângela já morou também em outro bairro pobre da cidade, o Anita Garibaldi. São invasões que se tornaram favelas e hoje estão sendo melhoradas aos poucos. Mas muita pobreza ainda é vista. O Renascer até há pouco tempo era conhecido como Mina 4 e o Anita Garibaldi como Mooca, uma alusão ao bairro rico da cidade de São Paulo.

O Luizinho, o filho mais velho de Ângela, também é um problema. Desde os oito anos já era usuário de crack. Ângela acredita que ele tenha largado esse vício, mas Neca tem suas dúvidas. Ele catava lixo e trocava por droga. Muitas vezes ficava na rua, fugia de casa, e por isso não ia para escola. Luiz estudou só até a primeira série. E parece não ter nenhuma perspectiva de vida. Não trabalha e quando apronta sai de casa. No dia da entrevista mesmo, ele estava na casa da vó.

- Oh Neca, não tem nenhum trabalho para o Luizinho?
- Olha, não sei direito. Mas posso ver algo. Mas o Luizinho tem que estudar também, né João.
- É, esse guri não quer nada com nada. Fica aí o dia todo dormindo. Só vem comer e vai pra rua.
- Ah, não é bem assim João, disse Ângela defendendo o filho. Ele é bem espertinho, mas às vezes dá umas besteiras nele. Às vezes ele aparece com celular, DVD, Mp3, esses aparelhos modernos aí. Ele cata um lixinho, que compra ué. Ou faz troca. Esses dias ele trocou a bicicleta por um celular.
- Não sei não o que faz esse garoto - resmungou João, enquanto fazia uma parte da parede nova da casa.


Ao tentar ajudar o menino, muitas vezes foi repreendido pela mulher. "Ele até já apanhou da Ângela acredita?", me confidenciou Neca. Ela também me disse que às vezes aparecem aparelhos eletrônicos que eles não pode comprar. Há suspeita de furtos, mas não é certo que isso realmente acontece.

João também já deu muito trabalho. Foi violento com Luizinho, com a mulher, quebrava coisas dentro de casa e mal parava nos empregos. Ele é alcoólatra e há pouco mais de um ano parou de beber. Nesse mesmo tempo conseguiu emprego em uma fábrica de laje e ganha por mês de R$ 300 a R$ 440,00. Sua remuneração varia por ser baseada em comissão. O dinheiro está sendo investido na ampliação da casa. Guarda todas as notas dos materiais que são comprados numa lojinha do bairro. Eles vão fazer mais dois quartos. Além desses novos, a casa lá tem dois quartos, uma cozinha, o banheiro e um cantinho para lavar roupas, e que também funciona como depósito. As instalações são precárias, faltam móveis, mas até agora é a melhor casa que eles já viveram.

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