quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Texto e foto: Magali Colonetti

Uma morena de cabelos longos e negros, com aproximados 1,75 m de altura e uma beleza diferente. Voz suave junto com uma maneira calma de falar. A primeira vez que entrei na sede da ONG Deusas da Noite, em Criciúma, a vi de costas sentada na frente do computador. Tive que olhar duas vezes e conversar com ela para ver que ela é uma transexual. Perguntei:

- Como vou te chamar? Ela, ele... como faço?
- Me chama de Jennifer, porque esse é meu nome.

O nome de batismo ela não revela de jeito nenhum. Jennifer Alamini é presidente da ONG que auxilia e orienta travestis, profissionais do sexo, gays, lésbicas, drag queens, homens e mulheres. A sede fica no prédio da prefeitura velha da cidade,num local bem escondido. Outras trans ajudam na ong, com menos freqüência do que as psicólogas Samira Abdenur e Rita Guimarães. Elas recebem o apoio da prefeitura que no último ano passou a ajudar financeiramente.

Esse trabalho fez com que Jennifer mudasse algumas coisas em sua vida. Antes saia para rua todos os dias e em qualquer horário fazia programas. Hoje, fica na parte da tarde no escritório, e alguns dias à noite ela estuda. Raramente vai para rua trabalhar. A maioria dos clientes que atende são fixos ou a procuram através de anúncio. Depois de mais de 11 anos, ela voltou a estudar e quer prestar vestibular para direito. Sonha em poder ajudar e representar alguns dos interesses das transexuais.

Nascida em Lages, ao completar seis anos de idade foi morar em Joinville. Seus pais, Leonil e Vitalina de Andrade, foram em busca de emprego na cidade grande. Além de Jennifer, eram mais seis meninas e dois meninos como filhos. "Ser criada no meio de muitas mulheres não influência em nada não ta? Isso é besteira", explicou. As dúvidas começaram a surgir quando estava na escola, entre a primeira e a quarta série. Via uma menina dançando com um menino nas festinhas, e queria ser a menina. O que esta acontecendo comigo? E por que comigo? Eram dúvidas que surgiam. Entre nove e 10 anos, ela começou a entender que na verdade gostava era de meninos. Nesse período também as crianças já começavam a pegar no pé. Chamavam de veadinho, gayzinho, o que dificultava um convivio melhor entre os colegas. Sua primeira relação sexual foi com seu primo Júnior. Ela tinha 11 anos, e ele 14. Não restaram dúvidas sobre sua opção sexual.

Para ajudar os pais nas contas da casa a escola foi deixada de lado. Conciliar a escola e o trabalho ficou difícil na época. Jennifer não demonstrava e tentava disfarçar sua homossexualidade. Até seus 16 anos manteve a aparência. Ela saia com os meninos escondida, e até chegou a manter um namoro de fachada com uma amiga. Durante um ano elas namoraram até que depois de uma festa, acabaram num motel e mantiveram relação sexual. "Estávamos em mais casais, e todos quiseram ir para o motel. A gente foi, e para não "dar bandeira" fomos para um quarto. Sabíamos o que estávamos fazendo". O resultado dessa única noite foi uma gravidez inesperada. Ela tinha 16 anos e a amiga 18. O pai de Jennifer queria que eles casassem, mas a situação não era fácil. Jennifer foi clara com a amiga dizendo que não queria casamento. Não era a vida que queria. Falou com a mãe da amiga, uma senhora mais idosa e que entendeu tudo. O problema era contar para seus pais. Elas até esperaram um pouco, mas a barriga começou a crescer e tiveram que contar.

Quem primeiro recebeu a notícia da gravidez foi sua mãe. Que também soube da opção sexual do filho e caiu em prantos. Havia chegado o dia em que as suspeitas tinham sido confirmadas. Jennifer não falou com o pai, sua mãe fez isso. Até hoje ela não imagina o que foi dito, mas não foi forçada a casar. O filho chama-se Vinicius e hoje tem 17 anos. Mora com a mãe em Joinville. Segundo ela, ter um pai transexual é encarado numa boa pelo menino.

Com os pais sabendo a verdade, a história mudou. Ela começou a andar com roupas mais modernas, e fazia apresentações como drag queen nas boates em Joinville. Nos finais de semana geralmente dormia na casa das trans, que ficava no mesmo bairro onde morava.
Jennifer era meio revoltada e não parava nos empregos. Esse foi um dos motivos da briga que teve com seus pais. Com 20 anos ela saiu de casa e foi morar em Jaraguá do Sul, distante 44 km de Joinville. Dividia um apartamento com Adriana, uma amiga que hoje já faleceu. A situação ficou ainda mais complicada quando em uma reunião de família discutiu com o pai e com um tio.

- Ah esses veados. Falou Sr. Leonil já um pouco bêbado enquanto conversava com seu irmão.
- Esse veado é seu filho.

Nesse dia ele ouviu pela primeira vez da boca do filho que ele era gay. Pouco tempo depois ela veio morar em Criciúma e aqui começou sua transformação. O primeiro passo foi tomar hormônio feminino. Ele começa a aumentar o seio e reduz os pelos do corpo. Essa substância tem algumas conseqüências negativas causando muita alteração de humor, e com o tempo deixa a pessoa um pouco "birutinha". Todo transexual inicia a transformação assim. Jennifer recomenda a procura de um médico.

Depois do hormônio, foi a vez de colocar silicone injetável no bumbum. No rosto, nenhuma mudança. A não ser a depilação a laser para eliminar a barba totalmente e a modelação de suas sobrancelhas com a maquiagem definitiva. Seus cabelos cresceram, e as unhas foram melhor cuidadas. Toda essa transformação foi feita aos poucos, e sua família, principalmente sua mãe, foi vendo isso também aos poucos. Para finalizar, Jennifer colocou uma prótese de silicone no seio. Fazer uma operação para troca de sexo está fora de seus planos. Ela não tem vergonha do seu órgão sexual. Em contrapartida algumas trans têm. Chegam a ter tanto nojo que acabam deixando de fazer a higiene pessoal corretamente, por exemplo.

Trabalhar na prostituição foi a primeira opção depois da transformação. Muitos clientes surgiram. Alguns fixos e a maioria passivo. Esse é um perfil dos clientes dela, não necessariamente toda trans tem somente clientes passivos. Ela encara realmente como um trabalho e uma forma de renda extra. Tem seu lugar na Avenida Centenário, uma das ruas mais movimentadas de Criciúma. Em Criciúma são em média 42 transexuais. Os clientes na maioria das vezes as procuram para realizar fantasias. A profissional do sexo sempre vai realizar, afinal de contas estão pagando por isso. São homens que pedem sigilo e isso eles têm.

Seu parceiro foi um de seus clientes. Ela conheceu José Alamini logo quando chegou em Criciúma. A união já dura nove anos e seis meses, e ele, assim como a ONG, também mudou sua vida. Com um jeito quieto e meio machão de um homem de 49 anos, ele diz enxergar Jennifer como mulher e não uma transexual. Sempre respeitou o trabalho da mulher, mas vem pedindo para parar. Atualmente mora em Lauro Müller por causa do seu trabalho em uma mina de carvão. Os dois só se encontram no final de semana, quando a Jennifer vai até lá. Ao se aposentar, vai voltar para Criciúma e os dois vão viver com o aposento e o salário que agora ela consegue na ONG. Seu companheiro também foi importante para que as drogas saíssem de sua vida. Desde adolescente foi usuária de maconha, e não saia para a rua sem estar drogada. Na verdade, ela permanecia o dia todo drogada. Um dia, em crise de abstinência, teve uma briga com o marido. A polícia havia apertado o cerco contra os traficantes e maconha na cidade estava difícil de encontrar. Uma quantia era comprada por ela toda sexta-feira. O suficiente para consumir durante a semana. E naquela manhã a entrega não tinha sido feita. Só às 14 horas o traficante teria algo para entregar.

- Vai lá na casa do traficante pra mim. Ele disse pra ir lá às duas da tarde. Vai lá.
- Ta eu vou. Mas saiba de uma coisa: isso ainda vai atrapalhar nosso relacionamento.
Jennifer parou para pensar, e se perguntou: "Meu Deus o que foi que eu fiz? Um cara que não bebe, não fuma, ir na casa de um traficante pegar droga pra mim?". Então ela foi atrás, e viu que ele não tinha ido na casa do traficante. Chegou a brigar por causa disso, mas desde aquele dia nunca mais usou.

Trabalhar como profissional do sexo rende muito dinheiro, mas tudo é gasto sem nenhum controle. O que elas conseguem durante a noite, é gasto durante o dia. São cremes, tratamento de beleza, roupas, sapatos, táxis, festas... tudo muito caro. O padrão de vida delas é caro. Também é muito perigoso trabalhar na rua. Jennifer, por exemplo, nunca carrega o dinheiro na bolsa ou sai de sapato fechado. Já tentaram pegar sua bolsa muitas vezes. No pé um tamanco serve como arma. Também é fácil de tirar, caso ela precise sair correndo. Todas essas situações já são normais para elas.

Nesse tempo trabalhando na ONG e participando das reuniões que os grupos fazem em todo o Brasil, Jennifer viu que existe outra alternativa. Existem prefeitas, juizas, médicas, e várias profissionais que são transexuais. Começou a organizar melhor seu dinheiro, tem sua casa, seu carro, e até já sofre preconceito das demais trans da cidade. O apelo financeiro está sendo deixado de lado, e a busca para que o grupo das transexuais tenha uma melhor orientação está fazendo cada vez mais parte da sua vida. Mudanças que vão além da imagem, e do estilo de vida. Querer ser mais do que a sociedade diz que ela pode ser, e mostrar que todos são iguais.

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