sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Além do para papapapapapapapa

No reveillon duas músicas foram trilha sonora da grande maioria das festas, sendo elas nas residências ou bares. Todos dançaram e comemoraram a virada do ano ouvindo Pirigueti e Rap das Armas. A primeira fala da menina fácil, aquela que o cara tem para ser uma diversão extra. É uma zoação com um fato que acontece muito. Na minha opinião, guria que se sujeita a isso é uma tansa. (tomara que eu nunca morda a língua). Já Rap das Armas, um sucesso que veio junto com o filme Tropa de Elite, fala sobre conflitos na favela, as armas usadas contra a polícia e contra facções inimigas.

Duas músicas que tratam assuntos polêmicos. Mas aqui vou defender que brincar com tristeza, principalmente no caso da música do Rap das Armas, é muito irônico. Quem fez a música a fez como forma de protesto, através de um estilo de funk chamado de proibidão. Ele explora de forma demasiadamente explícita os temas da violência e do crime – inclusive com narrativas sobre os conflitos entre traficantes nas favelas, elogios a facções ou traficantes, exaltação do poder bélico de determinadas comunidades etc. – ou da sexualidade/erotismo, muitas vezes narrando, sem nenhum pudor, situações eróticas vividas ou desejadas pelos intérpretes.*

O rap das Armas foi gravado em 1999 por Cidinho e Doca. Narra o cotidiano da favela Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Descreve principalmente a relação entre as facções do narcotráfico e a polícia. E engradesse a comunidade por terem tantas armas potentes como a AR-15, M-16, Ponto 50 e AK-47. Essas armas são de grosso calibre e algumas delas utilizadas pelas forças armadas em artilharia antiaérea.

Cidinho e Doca não cantam mais proibidões.

Quem já parou para analisar o que essa música diz? Leia e tire suas conclusões. A minha é: enquanto muitos festam com a letra dessa música. Muitos outros sofrem por justamente conviver num ambiente assim. Onde o morro não tem lei, e a guerra civil é uma realidade. E não só uma letra.

Parapapapapapapa Paparapapapapapa paraapapapapapa kla que bum parapapapapa

Morro do Dende é ruim de invadir / Nós com os alemão vamos se divertir

Por que no Dende eu vou dizer como é que é / Aqui não tem mole nem pra DRE

Pra subir aqui no morro até a BOPE Treme / Não tem mole pro Exército, Civil nem pra PM

Eu Dou o maior conceito para os amigos meus / Mas morro do Dende, Também é Terra de Deus

Vem um de AR15 e outro de 12 na mão / Vem mais um de pistola e outro com 2 oitão

Um vai de Uru na frente,escoltando o camburão / Vem mais dois na retaguarda mas tão de Glock na mão.

Amigos que eu não esqueço,nem deixo pra depois / Lá vem dois irmãozinhos,de 762

Dando tiro pro alto só pra fazer teste de InaIntratec Pisto,Uzi ou Winchester / É que eles são bandido ruim e ninguém trabalha

De AK47 na outra mão a metralha / Esse rap é maneiro eu digo pra vocês

Quem é aqueles caras de M16A / Vizinhança dessa massa já diz que não aguenta

Na entrada da favela já tem ponto 50E / Se tu tomar um "PÁ" será que você grita? Seja de ponto 50 ou então de ponto 30

Mas se for alemão,eu não deixo pra amanhã / Acabo com safado dou-lhe um tiro de FAZAN

Por que esses alemão,são tudo safado / Vem de Garrucha velha dá dois tiro e saí vuado

E se não for de revólver,eu quebro na porrada / E Finalizo o rap detonando de granada!

*Fonte : O BOM E O FEIOFUNK PROIBIDÃO, SOCIABILIDADE E A PRODUÇÃO DO COMUM, texto de Ecio de Salles, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal Fluminense e doutorando em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da UFRJ.

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