terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Foto e texto: Magali Colonetti

Ela não teve tempo de ser criança, e o seu maior arrependimento foi não ter estudado. "Tenho só até a quarta série. Eu estudava, quando tinha que parar para trabalhar minha mãe pedia e eu parava. Naquela época o importante era o homem estudar, a mulher não precisava muito", contou com lágrimas nos olhos. Albertina Padoim Ghizzo nasceu numa família de sete irmãos que viviam no interior do Sul de Santa Catarina, em Estação Cocal. Ajudar na roça era uma de suas funções. Acordava às quatro da manhã e ficava até às 11 horas. Ia para casa e fazia o almoço, retornando depois para ficar até às 18 horas trabalhando. Esse esforço todo era para garantir a comida na mesa. Mas sua rotina não parava aí. Ao chegar em casa encontrava mais trabalho para fazer. Cuidar dos animais criados por seus pais, entre eles oito vacas, também era sua função. Isso apenas com 11 anos de idade, mesmo ela não conseguindo carregar um balde de leite. Nessa tarefa ela tinha a ajuda da mãe. O pai de Albertina morreu um ano depois, quando ela tinha 12 anos. Por ser a irmã mais velha, suas responsabilidades aumentaram. Ela passou a ser o braço direito da mãe, que tinha a tarefa de criar os sete filhos sem ajuda do marido. E o tempo para a escola foi ficando cada vez mais inexistente.


As lágrimas voltaram a face de Albertina quando contou sobre um acidente que sofreu aos 13 anos. Ao tentar "fazer" fogo utilizando álcool, uma parte do lado esquerdo do seu corpo queimou. Ela ainda lembra sua mãe explicando como sua pele fervia, e só parou de queimar quando foi abafada em uma coberta. Foram 15 dias em cima de um colchão d’água e o total de dois meses internada. Uma recuperação considerada rápida pelos médicos, que achavam que ela ia ficar uns quatro meses. Mas a dor não ficou só nas dores da queimadura. Foram queimaduras de terceiro grau, que até hoje ainda marcam a pele de Albertina. Algumas mais sutis, já que nos últimos 10 anos ela fez cinco cirurgias plásticas. A última há menos de quatro anos. Sua imagem refletida no espelho, mesmo não tendo marcas no rosto, a deixaram com medo de encarar as pessoas. Em uma forma de tentar fugir desse confronto com a sociedade, ela pensou em ser freira. Uma de suas tias já era, e ela via ali uma saída. Mas sua mãe não deixou e a encaminhou para o psicólogo. "Eu tinha vergonha de sair na rua! Eu tinha vergonha de mostrar meu corpo. Mesmo com as queimaduras tapadas, eu cismava que olhavam pra mim", lembrou. Até a forma de vestir-se mudou. Albertina só usava roupas mais fechadas e que cobriam as marcas.


Já um pouco mais velha, aos 18 anos, ela começou a ter crises. Eram desmaios que podiam durar por muito tempo. Em uma ocasião durou três dias. Sua aparência ficava como se estivesse dormindo, e quando acordava não lembrava de nada. A explicação dos médicos para esses desmaios era o encontro de duas veias do cérebro. Foram muitos anos de tratamento até as crises passarem. E isso mais uma vez dificultou sua ida a escola. As crises também chegaram a ameaçar a gestação do seu primeiro filho. Ela ainda tinha as crises, o que preocupou a família. Chegaram a levantar a hipótese de aborto, mas Albertina resistiu. Hoje Eduardo tem 27 anos e nasceu perfeito. Depois nasceu Edmilson, atualmente com 24 anos. "Pensei que nem ia casar. Achava que nenhum homem ia olhar pra mim", confessou. Mas ela casou sim, com o padeiro Fioravante Ghizzo Neto. "Ele entregava pães lá em casa. Quando chegava eu me escondia. Morria de vergonha. Mas começamos a namorar e hoje estamos casados".


Aos 50 anos, ela é uma das funcionárias do setor de limpeza de um supermercado de Criciúma. E já ouviu coisas como: "Eu estudei, tu não", "Tu é paga para limpar isso aqui". E outras frases que no fundo significam: "ei, eu sou melhor que você, minha função é mais importante que a sua". Resposta dela: "Arruma bem essa frente da prateleira, e deixa o chão sujo. Eles vão olhar mais pra tua prateleira bonitinha ou pro chão? Meu trabalho é tão importante quanto o teu". Foi sua sogra que a incentivou a trabalhar na limpeza de casas e empresas. Fazer isso é algo que Albertina aprendeu a gostar. Sente orgulho do trabalho que faz e sempre quer realizar bem feito. Sem falar que o dinheiro com esses serviços é bom. Além do salário fixo ela consegue algum dinheiro extra, totalizando uns R$ 1.200,00 reais por mês. Albertina considera sua história de vida triste, mas hoje se diz uma mulher resolvida e feliz.

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