quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Texto e Foto: Magali Colonetti

Ele trabalha no centro da praça Nereu Ramos, em Criciúma, de segunda a sábado. Sempre atento para o movimento da praça e sempre mirando no calçado de quem anda por ali, porque pode ser um possível cliente. Mesmo a pessoa estando bem distante, seu trajeto é acompanhado e se vier na sua direção já pode ser mais um dinheiro entrando no bolso. É assim, o dia todo olhando de um lado para o outro e chamando: "Ei senhor, vamo engraxá hoje?" Até para dar uma entrevista ele não pára. Rudnei Martins Januário tem 19 anos e há sete trabalha como engraxate. Função que vem de família. Seus tios e o avô paterno já foram engraxates. O seu tio Alfredo foi quem o ensinou. A necessidade de ajudar os pais fez com que, mesmo criança, fosse trabalhar. Profissão de grande concorrência essa, já que oito engraxates ficam juntos no mesmo ponto disputando quem passa.


Na praça, além da companhia dos amigos, tem a dos aposentados que ficam papeando esperando a hora passar, da sua caixinha e da mochila. Caixinha de madeira que ele mesmo fez, e brinca ter o patrocínio da Chevrolet. Onde o cliente coloca o pé tem o mesmo formato da logomarca da multinacional. Dentro dela estão a escova, a graxa e o paninho utilizado para dar aquele brilho especial no sapato do cliente. Por par de sapatos engraxado ele cobra R$ 3,00. Ele não tem muitos clientes fixos, e prefere assim. Acha que esse tipo de cliente acaba espantando os eventuais. Já tem outros meninos que pensam o contrário. Chegam a ir até na casa deles para realizar o serviço. Rudnei tem geralmente quatro ou cinco clientes por dia, o que chega a renda, no final do mês, de quase R$ 400,00. Quando chove demais, esse valor reduz. O dinheiro é utilizado para ajudar nas contas da casa que divide com os pais, irmãos, mulher e um priminho de um ano e dois meses. A criança é filho do tio João Januário, que assassinou a mulher por ciúmes. Ele está preso no Presídio Santa Augusta, em Criciúma. Pegou 21 anos de detenção, mas por causa das leis deve ficar quatro anos.


Quando sobra algum dinheiro no mês, Rudnei compra uma roupa ou algo que esteja precisando. Seu irmão Rafael, de 17 anos, não quis seguir a tradição da família. Trabalha em um supermercado da cidade. A irmã Jaqueline, de 14 anos, até o momento só estuda. Sua companheira Josiane Cruz Fernandes tem 20 anos, também ajuda nas contas da casa onde vive há seis meses. Ela trabalha como passadeira numa fábrica de costura. Dinheiro para oficializar a união eles ainda não tem, já que casar custa caro. Então assim vão vivendo.


Ser engraxate não é o que Rudnei pretende fazer por muito mais tempo. Ele fez um curso de metalúrgico através da prefeitura da cidade e pretende conseguir um emprego na área. Está de olho em alguma vaga na empresa MDS, que fica em Caravággio. Um bairro da cidade de Nova Veneza, distante 18 km de Criciúma. Estudou só até a sexta série, e acha que isso não vai atrapalhar muito. Considera-se um pouco diferente dos demais engraxates, já que tem uma família, uma casa para morar, e pensa além. Também se considera um cara extrovertido.


Durante esses sete anos trabalhando como engraxate, já passou por algumas situações não muito agradáveis. Primeiro acha que muitos ali sofrem preconceito. Um dos motivos é porque a maioria dos engraxates é afrodescendente, e apenas um é mais branquinho como ele mesmo diz.


- Talvez seria a forma como a gente se veste? Mas tem muita gente se que veste assim, acho que não é isso não.


Realmente, Rudnei estava vestido como um adolescente. Mesmo sua roupa sendo um pouquinho mais batida.Mas algumas pessoas passam por eles e nem respondem a tradicional pergunta: "Ei senhor, vamo engraxá hoje?" Isso o deixa magoado, e também acha uma falta de educação. Afinal de contas ele está falando com quem passa. Existem alguns que vão além, como foi um caso que tinha acontecido há pouco tempo. Naquela tarde de quarta-feira, um homem passou e ao ouvir a pergunta olhou para Rudnei e cuspiu para o outro lado. Mas basta conversar com seus amigos que tudo fica bem. Eles mesmos dizem: "cara, isso é normal". Eles acabam acostumando com atitudes assim. Já têm algumas pessoas que ao ouvir a oferta do serviço agradecem e dizem não educadamente. Cada um com o seu jeito.

Um comentário:

Kellen Rodrigues disse...

massa!
amoooo perfis! um dia ainda faço um livro, uma coletânea, algo assim... é massa né?
a próxima vez que passar pela praça vou olhar se vejo ele rsrs

me convenceu, vou adicionar o blog nos favoritos... rsrs

kisses