quinta-feira, 15 de maio de 2008

Mais um trabalhador brasileiro

Fotos e texto: Magali Colonetti

Ele é mais um trabalhador brasileiro. Acorda cedo, deixa as filhas no colégio, e vai direto para o ponto de táxi. Chega 07:40 horas e só sai de lá por volta das 22:30 horas. De segunda a segunda ele leva sua marmita com a comida do almoço, por preferir evitar restaurantes com medo de comer algo com alho ou cebola, temperos que ele não gosta. Também prepara uma garrafa de café, uns pães de acompanhamento ou faz lanches para substituir o café da manhã e o da tarde. A última refeição ele deixa para fazer em casa.

Magali: Ta e sua mulher não reclama que o senhor não para em casa?
Volnei: Ela já se acostumou, e acho que até gosta. Assim não fico incomodando em casa. Falou dando uma risada muito engraçada.


A esposa é dona Nadir Terezinha dos Santos, que antes ficava mais sozinha. Seu Volnei do Santos, taxista de 44 anos, trabalhava em dois lugares: durante o dia era taxista e a noite vigilante noturno. Que horas ele dormia? No taxi mesmo, nem ia para casa. Ele também já foi cobrador de ônibus, mineiro e motorista de ambulância. Hoje o carro é sua moradia. Ali ele coxila, escuta música, vê televisão. Encostado nele ele conversa com os amigos, repara nas pessoas da rua, e faz amizades. Todos conhecem seu Volnei, porque é nesse lugar que ele passa seu dia, e passou a maior parte da sua vida nos últimos anos. Carro que ele mantém novinho, para evitar custos com manutenção e para dar maior conforto ao cliente.


Hoje ser taxista é sua única atividade. Sua principal função é esperar o cliente chegar até seu carro quando ele está no primeiro lugar da fila, ou então aproveitar que está voltando de alguma corrida e encontrar alguém que precise dos seus serviços. Assim ele “molha a tica”, expressão usada para dizer que foram feitas duas corridas numa só saída.

De uma história Volnei tem orgulho. Alguns taxistas comentaram que haviam sido logrados por um golpista que dizia ser Oficial de Justiça e trabalhar para a juíza da cidade. Um dia esse cidadão chegou no seu táxi e pediu uma corrida para Tubarão. Ele acertou o valor de R$ 70,00 para ir e voltar. E o que ele andava na cidade o cliente pagaria separado. E assim foram eles. Chegando lá o cliente foi em vários lugares e chegara a ir para Laguna. Quando o taxímetro marcava mais de R$ 200,00, ele pediu para que algo fosse pago. E o cliente assim fez. Andando mais um pouco, e somando mais um valor alto o cliente sumiu. Volnei procurou a delegacia e ouviu a seguinte frase: “Não posso prender, tem que ter flagrante”. Mesmo ele tendo dado calote em vários colegas. Assim foi procurar a juíza e ela deu mando de prisão. Essa história é algo que ele tem orgulho, e me mostrou feliz a reportagem que saiu em um dos jornais da cidade (foto).

Durante a conversa ele continuou esperando os clientes. E eu fiquei esperando junto. Os colegas saiam aos poucos e o primeiro lugar na fila chegava, mas como seu Volnei gosta de conversar continuamos o papo. Perguntei se ele já havia sofrido algum acidente. Ele lembrou de um que aconteceu há quatro anos quando teve que desviar de um motorista que vinha na pista contrário tocando o carro para o outro lado. Teve um também que bateu em seu táxi quando ele vinha embora em um dia que trabalhou na frente de boate. O motorista estava alcoolizado e nem havia reparado que algo havia acontecido seguindo em frente. Volnei correu atrás do carro da pessoa e conseguiu pará-lo. Quando o motorista reparou o estrago que havia feito, pediu que a polícia não fosse chamada, por não querer confusão sendo professor de uma universidade. Pelo menos ele pagou o estrago feito no carro e os dias que ele ficou parado. Pois um dia parado já é um grande prejuízo. “Tem muita gente barbeira nesse trânsito, pessoas que pensam que sabem dirigir e não sabem. Tem que andar com muito cuidado e cuidando dos outros. Cada um tem uma mania, e na correria do dia-a-dia se vê cada coisa”, comentou.

Histórias é o que não faltam. Pessoas às vezes pegam o táxi e pedem que Volnei seja um detetive. “Siga aquele carro, por favor!”, já foi uma frase muito ouvida por ele. Homem seguindo namorada que o traia ou o contrário, pais seguindo o filho para algum lugar, etc. Uma vez a briga sobrou em estrago no carro. O marido irritado com a espoja brigou com o amante dela, e um soco foi parar no carro. “Hei no meu carro não!”, depois de dizer essa frase ele saiu correndo do local. Também existem pessoas que pedem para fazer corrida em lugares estranhos, na maioria dos casos para comprar drogas.

Opa cliente! Lá fomos nós para uma corrida. Seu Volnei quis deixar eu dirigir o carro. “Astra novinho, bem bom de dirigir, tu tem carteira não tem? Tem experiência?” Preferi não arriscar. O cliente entrou e sentou no banco da frente nem reparando que eu estava no banco de trás, mas seu Volnei tratou de me apresentar. Ele foi direto na casa do cliente, já sabia o caminho porque ele usa o táxi umas quatro vezes por semana. A corrida foi de R$ 8,00. Voltamos e só chegando no ponto ele anotou o valor na cadernetinha. Perguntei quando ele pretendia parar. O taxista não pode mais comprar carro ou renovar ponto a partir dos 70 anos, mas ele não me disse quando pretende parar. Por enquanto aguarda a aposentadoria. “Engraçado o governo te limita tempo de trabalho e idade para se aposentar. Mas se eu pedir emprego com meus 44 anos quem vai me dar?”, criticou. Mas enquanto ele aguarda a aposentadoria, pensa em aplicar seu dinheiro em bens. Apartamento, salas comerciais... assim terá uma renda fixa e extra.

Conversei mais um pouco mas outra cliente apareceu e como ele fez a corrida rápida e voltou ao ponto sendo o primeiro da fila, lá foi ele. Situação que todo taxista gosta muito, assim não fica esperando e tem mais corridas durante o dia. “Eu faço a corrida bem rapidinho para não ficar por último na fila. Mas tem taxista que nem ajuda direito o cliente e vem correndo pra ver se consegue a vaga. Eu não faço isso não”, confessou. Então lá foi seu Volnei, mas eu preferi não ir. Era hora dele continuar trabalhando e era minha hora de voltar para casa. Ele vai voltar ao ponto e ficar até o final do expediente. E antes de ir embora, subir até o supermercado e perguntar se alguém precisa de taxista. Assim podendo terminar seu dia.

Um comentário:

felipe marcel disse...

tem taxistas que sao otimos, tri bom pra conversar, mas o ruim é quando tu pega um que já tá de mau humor. aí, tá louco! dá vontade de descer do taxi e pegar outro!